Shiloh gosta de se vestir de menino e ser chamada de JohnReprodução/Just Jared
Shiloh gosta de se vestir de menino e ser chamada de John

Esta semana, um comentário polêmico da atriz Angelina Jolie deixou uma interrogação na cabeça de pais do mundo inteiro. Mãe de seis filhos, entre eles três adotivos e três biológicos, a mulher de Brad Pitt disse, em entrevista à revista americana Vanity Fair , que uma de suas filhas, Shiloh, de 4 anos, "quer ser um menino". "Então, nós cortamos o cabelo dela curtinho. Ela gosta de usar tudo que seja de garoto. Ela pensa que é um dos irmãos", complementou a atriz, bissexual assumida. No fim da semana, em entrevista ao jornal carioca "O Globo", ela reafirmou o comportamento da filha.

A atitude da atriz acabou levantando a questão: será que é possível uma criança demonstrar uma tendência homossexual tão precocemente? O consenso é de que, a princípio, as preferências de Shiloh pelo universo dos meninos não significam absolutamente nada. Segundo a psicóloga Adriana Nunan, crianças nessa idade gostam de experimentar tudo. "Da mesma forma que há as que brincam de casinha, de ser astronauta ou bombeiro, existem outras que gostam de se vestir de menino ou menina. São mecanismos que a criança cria para lidar com o mundo", explica ela, que ainda assim aconselha: "Só é preciso estar atento se o comportamento começar a aumentar e a persistir. Nesse caso, seria bom procurar um psicólogo infantil especializado em sexualidade para descobrir o que está acontecendo".

Para a psicanalista Ângela Vilela, membro titular da Formação Freudiana, a atitude tomada pelo casal hollywoodiano é a mais aconselhável: deixar a criança à vontade para fazer o que considerar melhor, dentro do limite, é claro, do apropriado. Apesar disso, ela pondera que a decisão da Angelina de cortar os cabelos da filha pode representar uma projeção pessoal e não uma vontade da criança. "Se a Shiloh apresenta identificações mais fortes com a figura masculina, imagino, pelo universo em que vivem, que seus pais não se prendam às determinações que vêm da cultura e da sociedade. Parecem ter feito a escolha de dar à criança a chance de expressar o que ela supõe ser".

O passado e a história de vida paternos também podem influenciar as decisões dos filhos, segundo Ângela. "É sabido que a Angelina teve uma infância difícil e nenhuma criança escapa do inconsciente e dos desdobramentos da história de seus pais sobre elas. A forma como os pais lidam com a sexualidade dos filhos tem a ver com a própria sexualidade deles. Isso, é claro, afeta o imaginário e as fantasias que a criança tem de si mesma", observa.

Sobre o fato de Angelina ser declaradamente bissexual, as especialistas concordam: não há influência na opção sexual dos herdeiros. "Hoje em dia se acredita que a homossexualidade tenha uma razão biológica. E ela é irreversível. Não adianta reprimir, bater, obrigar. A maioria dos gays nasce de pais heterossexuais, então não há indícios de correlação entre pais e filhos homossexuais. No caso de pais gays, a criança vai ter mais abertura para experimentações, para fazer, de repente, coisas que heteros têm vontade, mas não tem coragem", diz Adriana Nunan.

Para Ângela, no entanto, a opção sexual é delineada pelo que Freud chama de "séries complementares": fatores genéticos, influências do meio ambiente e da cultura em que estão inseridas. "Segundo a teoria freudiana, desde que nasce, a criança passa por várias fases de desenvolvimento sexual, e os recalcamentos, mistérios, experiências e acidentes que vão delineando esse percurso contribuirão para que ela, mais tarde, faça sua opção sexual. De preferência, sem enquadramentos no que se convenciona chamar de normalidade", ressalta.

A psicóloga Adriana reforça que o comportamento de Shiloh não é motivo para pânico. Isto porque uma criança de quatro anos não tem consciência sexual, ela está somente experimentando e se conhecendo. Ângela faz coro com a profissional e diz que uma criança ter dúvida sobre algo que ela nem sequer conhece é muito difícil: "A criança não tem como ficar em dúvida sobre o próprio sexo, porque ela só vai ter o instinto da sexualidade mais tarde. Ela pode falar que prefere ser menino porque gosta mais de jogar bola, mas isso não vai indicar necessariamente uma homossexualidade. Existem meninas que odeiam brincar de boneca e nem por isso se tornaram homossexuais".

A situação tem solução? Ângela Vilela responde: "Sim: esperar e aceitar. A melhor coisa que os pais podem fazer quando surgem esses questionamentos é procurar um psicólogo, mais para eles do que para a criança. Eles precisam de uma orientação, saber lidar com esses sentimentos ambíguos em relação a isso e lidar até com o medo de que o filho opte por outro sexo. Existem muitas questões envolvidas, ainda mais quando há certo conservadorismo. Mas o segredo é deixar a criança à vontade. Não adianta reprimir porque isso vai gerar um constrangimento que pode atingir a própria personalidade dela no futuro. Tem que deixar fluir e ver o que acontece com o tempo", aconselha.

Por Nayara Marques, especial para o Te Contei